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ARTIGO: Santa Catarina exporta produtos. Está na hora de também exportar empresas, tecnologia e inovação

E neste cenário de grandes oportunidades, Portugal reforça posição como porta de entrada para o mercado europeu

Bruno Albuquerque

Advogado no Brasil e em Portugal

Especialista em Negócios Internacionais

Executive Director da International Business Access (IBA)

Santa Catarina aprendeu a exportar produtos. Agora, o desafio da próxima década é aprender a exportar empresas, tecnologia e inovação.

Pode parecer uma afirmação provocativa, mas Portugal talvez seja hoje o melhor retrato desse desafio.

Dados do Centro de Inteligência e Estratégia da FACISC, elaborados com base em informações do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), demonstram que a relação comercial entre Santa Catarina e Portugal cresceu de forma consistente ao longo da última década. Em 2025, Santa Catarina exportou aproximadamente US$ 89 milhões para Portugal, enquanto importou cerca de US$ 282,3 milhões, mantendo uma balança comercial deficitária.

À primeira vista, o déficit pode parecer um dado negativo. Mas o verdadeiro significado desses números é outro: eles revelam que ainda existe um enorme espaço para ampliar a presença das empresas catarinenses naquele mercado.

A pauta exportadora continua fortemente concentrada em produtos tradicionais da indústria e do agronegócio. Madeira, papel, máquinas, equipamentos e embarcações representam boa parte das exportações catarinenses para Portugal. São setores nos quais Santa Catarina construiu, ao longo de décadas, uma reconhecida competitividade internacional.

Entretanto, há uma pergunta que precisa ser feita.

Como pode um dos maiores ecossistemas de inovação do Brasil praticamente não aparecer nas estatísticas de exportação de tecnologia e serviços para Portugal?

Um celeiro de tecnologia e inovação

Santa Catarina abriga um dos ambientes mais dinâmicos de inovação da América Latina: Florianópolis consolidou-se como referência nacional em startups; Joinville tornou-se um importante polo tecnológico e industrial; Blumenau é reconhecida pelo desenvolvimento de software; bem como Criciúma, Chapecó e diversas outras cidades vêm fortalecendo empresas nas áreas de inteligência artificial, automação, agritechs, healthtechs e indústria 4.0.

Mas essa força ainda pouco se reflete na presença internacional dessas empresas.

Exportamos excelentes produtos, mas ainda exportamos poucas empresas.

Pouca tecnologia. Poucos serviços. Pouca inovação.

Esse talvez seja o verdadeiro desafio da próxima década.

Internacionalizar uma empresa já não significa apenas vender para outro país. Significa captar investimento, estabelecer parcerias estratégicas, desenvolver operações internacionais e integrar cadeias globais de inovação.

E é justamente nesse contexto que Portugal assume um papel estratégico.

Acesso ao mercado europeu

Mais do que um destino de exportação, Portugal consolidou-se como uma plataforma de acesso ao mercado europeu. A proximidade cultural e linguística, a estabilidade jurídica, a integração à União Europeia e o dinamismo do seu ecossistema de inovação fazem do país um ambiente particularmente favorável para empresas brasileiras que pretendam expandir internacionalmente.

Essa aproximação ganha ainda mais relevância neste mês de agosto, quando Florianópolis receberá mais uma edição do Startup Summit, promovido pelo Sebrae. Nesta edição, o evento contará com um ingrediente especialmente simbólico: a realização da etapa catarinense da Startup World Cup, organizada pela empresa portuguesa Fast Track Ventures.

Mais do que uma competição internacional de startups, trata-se de um sinal claro de que Santa Catarina passou a integrar, de forma cada vez mais consistente, o circuito global da inovação.

Mas eventos, por si só, não internacionalizam empresas. Eles aproximam pessoas, criam oportunidades e abrem portas. E transformar essas oportunidades em negócios exige continuidade, preparação e articulação institucional.

Exige que empresários conheçam novos mercados, compreendam os seus ambientes regulatórios, desenvolvam relações de confiança e construam uma presença internacional de longo prazo.

É precisamente esse tipo de iniciativa que Santa Catarina precisa multiplicar.

Precisamos fortalecer as conexões entre empresas, universidades, investidores, ecossistemas de inovação, associações empresariais e instituições públicas. Precisamos criar pontes permanentes e transformar relações institucionais em relações comerciais.

International Business Access (IBA)

É dentro dessa lógica que surgem iniciativas voltadas à internacionalização estruturada das empresas catarinenses. Entre elas está a International Business Access (IBA), plataforma criada para aproximar empresários brasileiros de mercados estratégicos e promover conexões qualificadas entre empresas, investidores e instituições.

O primeiro programa da plataforma, chamado “Portugal Executive Access”, será realizado durante a semana do evento Web Summit, no mês de novembro, em Lisboa. A proposta é reunir empresários interessados em compreender melhor o mercado europeu, desenvolver relações estratégicas e acelerar os seus processos de internacionalização. Como extensão dessa experiência, os participantes passam ainda a integrar o IBA Board, uma comunidade internacional dedicada à atualização permanente, ao intercâmbio de conhecimento e ao desenvolvimento contínuo de relações empresariais.

Só que mais importante do que qualquer programa específico, porém, é a mudança de mentalidade que iniciativas como essa procuram estimular.

O empresário catarinense precisa deixar de enxergar a internacionalização como um projeto reservado às grandes multinacionais. Esse passo deve fazer parte da estratégia de crescimento de empresas de todos os portes.

Os dados da FACISC demonstram que Santa Catarina já construiu uma relação econômica sólida com Portugal. O próximo passo é fazer com que essa relação deixe de ser predominantemente comercial e passe também a ser tecnológica, empresarial e inovadora.

Santa Catarina já demonstrou ao Brasil que sabe produzir.

Já demonstrou que sabe inovar.

Agora chegou o momento de demonstrar ao mundo que também sabe internacionalizar os seus negócios.

Porque o futuro econômico do Estado dependerá cada vez menos da sua capacidade de produzir mais e cada vez mais da sua capacidade de construir relações e negócios nos mercados onde o futuro já está sendo desenhado.